terça-feira, 5 de maio de 2026

FUI EMBORA...

Um dia eu fui embora.
Não foi um gesto impulsivo, nem um rompante de coragem. Foi uma decisão construída em silêncio, amadurecida no desgaste de permanecer onde eu já não me reconhecia. Eu fui embora porque entendi que insistir também pode ser uma forma de me abandonar aos poucos. Permanecer, naquele momento, significava continuar investindo em algo que já não me acolhia.
Eu fui embora porque, lá na frente, enxerguei alguma coisa que imaginei que me faria feliz.
Era quase uma promessa silenciosa que eu fazia a mim mesma: se eu tiver coragem de partir, algo melhor me espera. Algum lugar, alguma pessoa, alguma versão de mim, alguma felicidade mais inteira. Essa visão me impulsionou. Foi ela que me deu força quando tudo ainda parecia nebuloso e doloroso.
E eu fui.
Fui embora de lugares, de vínculos, de expectativas e, principalmente, da versão de mim mesma que insistia em caber onde já não havia espaço.
No início, doeu. Doeu como toda despedida verdadeira dói. Havia o vazio, a dúvida, a saudade não apenas do que ficou, mas também daquilo que eu acreditava que encontraria adiante.
Só que a vida não costuma cumprir exatamente os roteiros que criamos.
Aquilo que eu imaginei como felicidade não aconteceu da forma como eu esperava. O cenário que eu projetei não se concretizou. O futuro que parecia tão promissor revelou-se apenas uma ideia, uma esperança, talvez até uma ilusão necessária.
E, ainda assim, ir embora valeu a pena.
Porque hoje eu entendo que nem sempre precisamos enxergar com clareza o que nos espera. Às vezes, basta reconhecer com honestidade aquilo que já não nos serve mais.
Mesmo que eu tenha me enganado sobre o que me faria feliz, essa ilusão teve sua utilidade. Ela me moveu. Me tirou da inércia. Me fez romper uma permanência que já me sufocava.
Eu precisei de tempo.
Tempo para reconstruir minha rotina sem certas presenças. Tempo para silenciar perguntas sem resposta. Tempo para entender que nem toda partida nos leva diretamente ao destino imaginado.
E então, um dia, olhei para trás e pensei: não dói mais.
Havia uma certa paz nessa constatação. Como se eu finalmente tivesse atravessado a tempestade.
Mas, quando foquei melhor, percebi: ainda doía.
Não como antes. Não de forma incapacitante ou desesperadora. Era uma dor mais silenciosa, mais madura. Como uma cicatriz sensível ao toque que, quando a gente menos espera, volta a sangrar, lembrando que certas marcas não desaparecem só porque seguimos em frente.
Foi então que compreendi algo importante: cura não é ausência total de dor.
Cura é conseguir olhar para trás sem desejar voltar. É reconhecer o que machucou, aceitar o que não aconteceu e, ainda assim, seguir.
Mas também compreendi outra coisa: ir embora não é, necessariamente, uma despedida definitiva.
A vida dá voltas que ninguém consegue prever.
Pode ser que, em outra circunstância, em outro lugar, em outro momento, eu reencontre aquilo que deixei para trás. Não da mesma maneira, não sob as mesmas condições, não com as mesmas dores. Talvez numa outra realidade. Numa outra versão de mim. Numa outra dimensão da vida, em que aquilo que antes não podia florescer finalmente encontre espaço.
Porque ir embora não significa destruir tudo o que existiu, nem decretar que nunca mais se terá aquilo que um dia foi importante.
Às vezes, ir embora é apenas reconhecer que, naquele formato, naquele tempo e naquele contexto, já não era possível continuar.
É preciso partir para se refazer.
É preciso se desmontar para depois se reorganizar.
É preciso se perder um pouco para conseguir se reencontrar.
Talvez só depois de um longo caminho eu possa olhar novamente para aquilo que deixei e perceber que tanto eu quanto aquilo já fomos transformados pelo tempo.
Talvez o reencontro exista.
Mas, se existir, não será um retorno. Será um encontro novo entre versões novas.
Ir embora foi necessário.
E talvez a verdadeira potência de partir não esteja em encontrar imediatamente algo maravilhoso esperando do outro lado. Talvez esteja em compreender que, quando não há pertencimento, partir já é, por si só, um ato de salvação.
Nem sempre existe algo lá na frente esperando por nós.
Mas isso não torna a partida menos necessária.
Porque há lugares, ambientes e relações dos quais precisamos sair simplesmente porque já não somos dali. Porque nossas raízes não encontram mais alimento. Porque permanecer custa caro demais.
Eu fui embora.
Não porque tinha garantias, mas porque ficar já não era possível.
E mesmo sem encontrar exatamente aquilo que imaginei, ganhei algo talvez mais valioso: consciência.
Aprendi que algumas partidas não são sobre chegar a algum lugar extraordinário, mas sobre não continuar presa ao que me impedia de existir com inteireza.
Às vezes, ir embora não é correr em direção a uma felicidade certa.
É apenas honrar a verdade de que já não pertencemos ao lugar de onde viemos.
E partir, muitas vezes, é a única maneira de um dia poder voltar a se encontrar.
🌹

(Vânia Wolf)

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